Entrevista para o programa “Prazer em Conhecê-lo” da Rede Vida dia 3/6/2007.
Começa o programa, uma série de conversas... Vários apresentadores, por isso, coloco só as perguntas e não quem perguntou.
Apresentador: (...) dito isso, a gente vai trazer a convidada de hoje. Importante convidada de hoje. Aliás, nesse programa só vem gente importante para o telespectador? Estamos trazendo aqui um dos nomes mais importantes da cena artística brasileira. É uma família, que toda ela traz uma bagagem. Uma família que pode-se dizer, faz o teatro brasileiro, faz a televisão brasileira, que contribui para que esse cenário seja importante, seja reconhecido no mundo inteiro. Nós vamos trazer aqui uma Abujamra. Já reconheceu esse sobrenome né? Então vamos trazer pra vocês no prazer em conhecê-lo de hoje, Clarisse Abujamra. Tudo bem Clarisse?
Clarisse: Melhor impossível.
Apresentador: Clarisse é produtora, é atriz, é diretora, e agora é tradutora também, de uma peça muito importante que vai ser lançada agora dia 5. Esse programa vai ao ar dia 3? E dia 5 de junho agora começa no Instituto Cultural Capobianco uma peça maravilhosa chamada “As Nove Partes do Desejo” que é tradução sua né? Conta pra gente?
Clarisse: Uhum. Eu fiz a tradução e a adaptação. Olha, eu vi esse espetáculo em Nova Iorque em 2004 e fiquei absolutamente extasiada quando o espetáculo acabou. Um baque violentíssimo. Ele trata das mulheres árabes iraquianas perante a guerra. Então vocês podem imaginar a pungência, o quanto comove esse espetáculo brilhantemente escrito por uma jovem chamada Heather Raffo, de 34 anos; hoje ela tem 34 anos. Ela levou 11 anos pesquisando e tem já na vida dela um ponto de exclamação porque o pai é iraquiano e a mãe é americana. Não preciso dizer mais nada né... Quando acabou o espetáculo, no meio do espetáculo, eu falei: ‘eu vou fazer isso’. Quando acabou, falei: ‘não, deixa baixar a poeira, estou sob a emoção do que eu vi, vou esperar um pouquinho’. Fiquei com medo, confesso que fosse uma coisa meio oportunista, porque infelizmente, a pauta do Iraque é uma pauta difícil. Que está no ar direto. E eu vim pro Brasil e passei um ano sem conseguir esquecer uma frase do que eu ouvi. Tentei de todas as formas entrar em contato com essa mulher, não consegui. Voltei pra Nova Iorque. Fiz uma coisa que eu nunca fiz na minha vida, eu fique sentada na porta do teatro, um frio, do lado de fora, num banco, rezando pra que ela passasse – o teatro estava fechado – e eu a visse e pudesse pará-la e falar com ela. Toquei a campainha, me falaram: ‘só tem o espetáculo, começa tal hora’ eu falei: ‘ah, ta, muito obrigada’ voltei e sentei no banco. Daí a pouco, vi a porta do teatro abri e um moço sair. No que ele saiu, eu botei a mão na porta – é que vocês não me conhecem, mas pra mim, fazer isso é... Pra eu fazer isso, é um absurdo! E entrei no teatro. Entrei e perguntei pro bilheteiro... Não tinha ninguém ali, de repente veio uma moça, eu falei: ‘por favor, a Heather?’ ela falou: ‘não, ela só vem mais tarde pra fazer o espetáculo’ eu disse: ‘você poderia me dar um contato dela mais certo? Ou do empresário dela que eu gostaria de falar?’ no que estou falando isso, abre a porta e entra a Heather. Aí ela falou assim: ‘boa tarde Sra. Heather!’ eu na mesma hora fui pra cima dela. Ela disse: ‘ mas é claro que eu me lembro – ela sabia tudo – você me deixou um cartão... ’ é que nesse intém, ela tinha mudado de empresário e eu não conseguia, eles não ficaram sabendo, enfim... E foi uma emoção. Porque ela é de uma ternura, de uma educação, e quando eu acabei de me colocar pra ela, falei que eu era do Brasil, que eu gostaria de montar, ela não me conhece, não tem a menor idéia do meu histórico, quem é essa mulher que aparece aqui e quer fazer... Mas foi um encontro de alma mesmo. Ela estava sentada, eu em pé, aí eu fui me despedir dela e ela levantou “e fez assim com a mão” (como vem aqui) que á um gesto que minha avó, Nazira, mãe do Abu, fazia muito. Aquilo me deu um arrepio na coluna sabe um gesto de família que ela fez. E levantou e me deu um abraço mais amigo e me emociono até hoje de lembrar. E aí, voltei pro Brasil, claro, ela me deu os direitos – me deu não né, (risos) cedeu; eu comprei os direitos da peça e dois anos depois, abrimos o pano com “As Nove Partes do Desejo”. Ela veio pro Brasil, pra ver o espetáculo. E a gente estava super apreensivo, porque a direção do Márcio Aurélio é brilhante, não tem nada a ver com o espetáculo que eu vi em Nova Iorque, nada! Então a gente estava com aquela apreensão. E com um detalhe gravíssimo, porque nos Estados Unidos, você não mete a mão num texto, você respeita. E eu meti a mão no texto. Porque tinham dados que, como é uma coisa factual, é um documentário em cena, certas informações já estavam ultrapassadas. Então eu fui peneirando as coisas mais atuais, e disse pra ela que algumas coisas eu estava tentando colocar na situação do Brasil, para o público brasileiro. Mas ela enlouqueceu com o trabalho graças a Deus! Foi maravilhoso! Então eu estou voltando agora, vou fazer só as terças, quartas e quintas. Eu pretendo pegar muito as universidades, porque eu quero viajar com o espetáculo as sextas e sábados. Estou fazendo festivais e cidades, enfim, se alguma cidade se interessar em ver “As Nove Partes do Desejo”, eu estou viajando. E vou ficar nesse Instituto Cultural Capobianco, que é um espaço relativamente novo em São Paulo, lindo, uma graça de teatro, pequeno, tem 100 lugares. Muito próprio pro espetáculo. Eu não sou uma atriz que gosta de espetáculos com grandes platéias. Desde sempre, eu gosto no máximo, estourando 300 pessoas. Se eu puder, eu ponho as pessoas ali no palco mesmo, eu gosto de olho no olho. E esse espetáculo praticamente pede isso. Então o teatro é perfeito pra isso.
Ap: Então, já percebeu o telespectador que tem aí um programa obrigatório pra ir, lá no Instituto Cultural Capobianco. Que fica na Rua Álvaro de Carvalho. É isso?
Clarisse: Álvaro de Carvalho é. As pessoas não lembram muito onde é. Você descendo a Consolação no sentido cidade, passou a São Luís, se você seguir reto, vai pro Municipal. Não tem uma rampa do lado, onde tem uns estacionamentos? Desceu aquela rampa, à direita já é a Álvaro de Carvalho.
Ap: Terça, quarta e quinta às 21h. Quanto custa isso é o que interessa.
Clarisse: Boa pergunta! Eu acho que é 30 inteira e 15 meia.
Ap: Já está bom! Tem uns que acham caro né Clarisse?
Clarisse: Eu não acho que o teatro é caro, eu acho que a gente ganha mal.
Ap: Não, eu digo, têm algumas peças que não valem aquilo que cobram não é?
Clarisse: Aí a cada um sua sentença... (risos)
Ap: Bom, vamos começar o programa. Clarisse, você conhece o programa não é?
Clarisse: Conheço.
Ap: Então vou fazer umas perguntinhas pra localizar você. Nome todo? Clarisse Abujamra ou tem mais coisa?
Clarisse: Mattos Abujamra. Mattos, que é da minha mãe.
Ap: Seu papai, quem era?
Clarisse: Meu pai é! João Abujamra, que é poeta também, escritor industrial.
Ap: Está vivo?
Clarisse: Está... Os dois.
Ap: Está assistindo o programa?
Clarisse: Com toda certeza! (risos) Mais fácil um burro voar do que... (risos) A família comparece!
Ap: Quais são os Abujamra mais famosos que tem por aí?
Clarisse: Eu acho que o primeiro deles, que é o Antonio Abujamra, que tem o ‘Provocações’, o famoso programa. Aliás, agora ele está se apresentando no festival de teatro em Portugal, depois vai pra Praga, fazer algumas tomadas para o ‘Provocações’. E já tem uma geração nova de Abujamras que são de um talento a toda prova. A Ive Abujamra, que é irmã do Ivan Abujamra que é um grande fotógrafo, é uma diretora de comerciais, de clipes, etc, a menina é fera! A Maria João que está despontando como atriz, fez agora um Tchécov, com direção do Abu também. Que é maravilhosa! A Maria Júlia...
Ap: A Maria João é a que faz participação no programa do Amauri Jr?
Clarisse: Isso! Mas agora, ela está encadeando mais pra carreira de atriz mesmo.
Ap: Ela estava fazendo uma apresentação lá, estava muito bem, ela é ótima!
Clarisse: É ela é uma graça de menina, impulsiva!
Ap: É aquela que tem um piercing na língua.
Clarisse: É... (risos) A irmã dela, Maria Júlia, é uma pintora maravilhosa! Tem quadros belíssimos, toca tchelo... Tem uma geração nova de Abujamras que eu fico orgulhosíssima!
Ap: Como é o nome da mamãe?
Clarisse: Dinah. Que é o nome da minha filha mais velha também.
Ap: Aqui pede data de nascimento...
Clarisse: Com muito orgulho! Ano que vem eu faço 60 anos. Eu nasci em 48.
Ap: Nossa! Está começando!
Clarisse: É, há quem diga!
Ap: Estado civil?
Clarisse: Eu sou divorciada.
Ap: Você é muito bem casada, várias vezes...
Clarisse: Não, eu casei uma vez só!
Ap: O marido todo mundo conhece não é?
Clarisse: Conhece!
Ap: É um mais ou menos aí, um tal de Antonio Fagundes, aquele feio.
Clarisse: É pouco talentoso...
Ap: Filhos?
Clarisse: Três, Dinah, que é minha filha velha; Diana, que é a caçula; e Antonio, que é o do meio.
Ap: Muito bem! Profissão, já falamos tudo, vamos começar... (...) Você acredita em amor a primeira vista? Ou isso só acontece nas novelas?
Clarisse: Acredito! Acredito sim. Por que não né? Não tenho dúvida nenhuma, é possível sim. O meu casamento se deu quase com uma história de amor a primeira vista. Pelo menos da minha parte. Então eu acredito. O amor, seja como for, a primeira vista, a décima, ele é sempre bem vindo.
Ap: Clarisse, na opinião de Charles Dickens, cada fracasso nos ensina algo que necessitávamos aprender. Qual foi o seu maior fracasso?
Clarisse: Meu maior fracasso? Eu ainda não vivi o maior fracasso. Porque, eu tive algumas experiências não tão vitoriosas, digamos assim. Mas eu não reputo nenhuma delas a um fracasso; porque era uma lição tão grande, era um aprendizado tão grande, eu não conseguiria nem verbalizar isso, 'foi um fracasso’.
Ap: Desculpe a pergunta...
Clarisse: Não, imagina! Bem pertinente. A gente podia conversar sobre isso horas, eu realmente acho que se é um fracasso, ele veio pra te abrir uma porta, pra você ficar mais esperta, pra você lidar com a sua competência, ou não. Então eu acho que muitas vezes ele é até bem vindo.
Ap: Dizem que a nossa personalidade é produto dos livros que lemos, que gostamos, que livros marcaram a sua vida?
Clarisse: Nada na minha vida tem ‘um’. Eu sou uma leitora voraz! É a grande paixão da minha vida. Eu tenho algumas coisas que eu prefiro, desde sempre – eu nasci alimentada pela dança e pela poesia, eu sou alucinada por poesia, a poesia é como uma bíblia pra mim. Eu tenho um livro de poesias do lado do meu computador, do lado da cama, pela casa inteira, na minha casa, onde você for você vai encontrar algum poeta ali no canto. Eu acho que a poesia nos torna melhores, acho que nos faz compreender o outro melhor. Eu adoro a beleza da palavra, e a poesia é isso, é o exercício pleno dessa beleza. E outra coisa que eu gosto demais são as biografias, eu adoro biografia! Agora mesmo, estou lendo de Kafka, estou adorando. E estou fazendo uma coisa que nunca fiz antes, eu sempre lia um livro de cada vez, hoje eu leio três livros ao mesmo tempo. Eu tenho um na bolsa, que é, por exemplo, se eu venho trabalhar, atrasou, eu pego um livro mais leve, o livro de poesia eu nem falo porque eu consulto todos os dias. Aí eu tenho um que ou é o maior deles, um russo daqueles pesados que não dá nem pra carregar, aliás, eu adoro os russos! E um outro, ali no meio termo que se eu não estou afim de pegar aquele livro que requer tanto... Eu to lendo junto com essa biografia do Kafka, estou terminando um que eu nunca tinha chegado a terminar, o Proust, ‘Em busca do tempo perdido’. Eu falei pro meu filho, ‘eu preciso comprar esse livro’, ele foi e me deu, então estou lendo. Eu adoro, tenho escrito em casa: ‘Ler ou não ser’. Eu acho que é fundamental.
Ap: O que é pior, a traição feminina ou a masculina? Você já foi traída?
Clarisse: Eu acredito que sim. Não sei essa palavra, ela é um pouco cortante. Existem traições e traições, eu não sei como explicar. Sempre acontece porque alguma coisa não está fluindo ou alguma energia ali falhou, alguma coisa assim. Eu acho a palavra traição um peso tão difícil, tão delicado, é uma palavra que raramente eu uso. Então se é traição, vamos usar essa palavra, porque existe desde amizade, até um relacionamento amoroso... Eu acho que existem talvez decepções, mas traição... Eu acho que quando você fala ‘eu fui traído’ você se dá uma importância... Você é um ser que ‘fui traído!’, meio que não é por aí na minha cabeça.
Ap: Clarisse, existem situações, coisas que modificam as pessoas. Eu diria, mais do que modificam, elas revelam facetas até mais verdadeiras da própria personalidade de uma pessoa. Por exemplo, viajar. Você já reparou que quando a pessoa viaja, ela se transforma? Às vezes pra melhor, ou às vezes pra pior. Uma das coisas que muda a personalidade da gente é a doença. Como você é quando é doente?
Clarisse: Olha, eu tenho um exemplo na minha casa, da minha mãe, não doente, ela é uma senhora, tem problema na coluna. Eu não me lembro de ter ouvido minha mãe dizer ‘ai’. É de uma força! É uma mulher que não sabe dizer não, você vê na carinha dela, que ela está ali, uivando de dor, você fala assim ‘me deu vontade de tomar chá’; aos trancos e barrancos, ela vai e vai fazer aquele chá pra você. Não digo que eu tenha a mesma força que ela, mas eu sou forte pra dor. Principalmente se eu tenho que trabalhar. Se eu não tenho que trabalhar, eu meio que ‘ai, ta doendo’... Se eu tenho que trabalhar não, eu sou de ferro.
Ap: Tem alguma coisa que dói mais do que a solidão? Ou a solidão não dói?
Clarisse: Dói! Muito! Eu acho. Mas a solidão a que eu me refiro, é a solidão intelectual. Essa pra mim é a mais difícil de todas elas. E hoje em dia está difícil, porque o ato de dialogar, de conversar, está sumindo do mapa esse costume. Então, ou você está na internet, ou é sempre uma coisa rápida. Você trocar idéia, olho no olho, conversar, você terminar um livro e poder discutir aquele livro, ou você sair de um ensaio, encontrar com um amigo e poder discutir a obra, e no que aquilo pode realmente chegar em você, o que eu quero, então, essa pra mim, é a pior solidão. A outra, eu posso deduzir. Que também não deve ser muito amena, não deve ser muito fácil. Mas como eu não a vivi ainda, eu não posso dizer. Mas a solidão intelectual, eu estou passando por esse momento agora. É uma coisa delicadíssima. Essa pra mim, até então, é a mais delicada.
Ap: Um mau voto gera arrependimento, você já se arrependeu?
Clarisse: Não.
Ap: Sempre votou no seu favorito?
Clarisse: Votei fiel ao que no momento eu acreditava ser a atitude correta. Sem sombra de dúvida. Nunca votei porque fui influenciada por fulano ou sicrano, sempre votei bastante ciente. Posso me arrepender ou não depois, mas no ato, votei pela minha cabeça. Sempre com esperança. Eu ando um pouco brava com essa palavra sabe, estou querendo trocar. (risos) Eu acho que com essa história de esperança nós estamos parados.
Ap: Falando em um pouco brava, você aparenta ser uma pessoa muito calma, serena. Mas todos nós temos os nossos momentos. O que te deixa fora do sério?
Clarisse: A incompetência. Isso me desespera. O Abu tem uma brincadeira, que ele chama de ‘eficiência burra’. A eficiência burra é você respeitar o seu espaço, você respeitar o seu horário. Por exemplo, se você tem ensaio, você sabe que têm que estar lá tal hora, as coisas mais simples da vida. Quando essas coisas são tão simples, me desespera. Porque eu sou insuportável com o meu trabalho. Eu sou como alemã, na rigidez... Porque é um momento onde por mais que eu esteja natural, eu tenho um compromisso. Seja ele de me expor ou não. Então tem um frisson, tem alguma coisa que muda em você. E quando você está com toda essa disposição e a eficiência burra falha, não vem a seu encontro, isso me desespera, me tira do sério.
Ap: Todo mundo diz que não tem superstição, mas bate na madeira. Você tem alguma superstição?
Clarisse: Todas! (risos) Todas as que você puder imaginar. Eu não sei nem se é superstição. Não passo em baixo da escada. Como é o ditado? “Nao creo em brujas, pero que las hay, las hay.” Então eu bato na madeira, eu faço tudo.
Ap: No teatro também?
Clarisse: Ah, por exemplo, eu tenho horror, quer dizer, existe uma coisa no teatro, não se assobia dentro de um teatro. Então, vem um encalto ali e assobia, eu fico desesperada. Não assobia pelo amor de Deus! Eu tenho o hábito de só entrar em cena, só pisar com o pé direito. Isso, eu quero até quebrar porque às vezes me desespera. E o teatro, é o resumo da vida, é o resumo do relacionamento, é o resumo das emoções, tudo que se passa no teatro você pode aplicar pra vida. Então, segue a mesma coisa, no teatro eu também tenho, mas nada de fé, sabe, é uma coisa que eu estou acostumada.
Ap: Clarisse, quando é que uma mulher e quando é que um homem estão bem vestidos?
Clarisse: Quando eles estão à vontade, felizes, bem, se sentindo bem. Conforto é uma coisa fundamental. Você se sentir bem dentro de você. Eu por exemplo, quando ponho uma roupa que é pra fazer um tipo, um modelo, eu vou errar. Bota no relógio. Dali quinze minutos eu estou errando alguma coisa. A não ser que seja um personagem claro. Eu primo pelo conforto.
Ap: Todos nós vamos ficar velhos um dia, se Deus quiser. O que você considera a pior coisa da velhice?
Clarisse: A doença. Você perder a sua agilidade. Eu acho que é o Vitor Hugo, me perdoem se não for não devia nem ter citado o nome, mas que tem um poema belíssimo que num momento ele diz ‘não tem importância que eu leve tanto tempo pra levar o copo à boca, eu já não tenho tanta sede’. Eu acho que explica bem isso. Também, quando você está mais velho, você não tem pressa. Eu vejo pelos meus pais, a maneira deles, enquanto eu estou feito um furacão, uma louca... Eles não têm pressa, eles vão, eles chegam, eles fazem. Então, o que eu acho mais triste na velhice, é a saúde, quando a saúde falta. Isso me assusta muito. Eu estava conversando com as crianças outro dia, falei ‘quero mais dez anos de vida, está de bom tamanho’. Uma amiga falou ‘estou aqui com 70 e maravilhosa!’. Não quero dizer que com 70 não estarei maravilhosa, mas acho que 70 anos pra mim está de bom tamanho.
AP: Com 70, você vai querer mais dez.
Clarisse: Eu sei lá! (risos) Mas eu não vejo nisso nenhum drama. Eu acho que se eu conseguir, que Deus me ouça. Daqui a dez anos está de bom tamanho pra ir embora.
Ap: Dizem que sem divertimentos, a mente fica burra. Quais são os seus divertimentos?
Clarisse: Ler, ver um bom espetáculo, eu adoro. Um bom filme e se eu pudesse, era viajar, viajar, viajar... (risos) Adoro viajar! Se pudesse, eu viajaria todo ano. E sempre viajei sozinha, eu com minha mala e fui pelo mundo. É a maior escola do mundo. E também um tempo que você tira pra você, quando viaja. Eu tenho esse dom. Mesmo sendo a mãe leoa que eu sou, a hora que eu entro no avião... A cabeça está ligada, eu estou ligando, mas o meu olhar, a minha curiosidade, que eu acho a melhor coisa do ser humano, quando o olho ainda é curioso. Isso eu tento preservar. A única coisa que fica complicada é que vai ficando difícil você se surpreender. Hoje em dia a natureza é o que mais me alimenta nesse sentido de me surpreender. Ver coisas lindas.
Ap: Clarisse, primeiro eu quero dizer que daqui a nove anos eu quero te trazer de novo aqui, e aí você vai confirmar se daí a um ano vai estar bom. Ou se você vai querer mais dez.
Clarisse: (risos) Aí os netos vão estar chegando, provavelmente eu não vou querer não. Talvez mais uns dez.
Ap: Quando eu tinha 18, eu achava que com 40 já ia estar velho.
Clarisse: Mas o meu não é por ser velho, é porque eu acho que já está de bom tamanho.
Ap: Mas me diz uma coisa, você acredita que há coisas que não têm perdão?
Clarisse: Existe cabeça e coração não é. Não consigo dissociar. Mas eu acho que às vezes na cabeça tem, mas no coração não, ou no coração tem, mas na cabeça não.
Ap: Há alguma coisa que alguém possa lhe fazer que não tem perdão?
Clarisse: Eu tenho a impressão que se mexerem num filho meu, eu viro uma leoa. Não faça isso. Mas ao mesmo tempo, eu acho que uma das coisas belas dessa passagem de tempo, o que eu estou descobrindo até então, é a possibilidade infinda de se tornar uma pessoa generosa. Não o lado babaca da palavra. No lado belo dessa palavra. Estou descobrindo essa palavra a cada dia. Então, esse tornar-se uma pessoa generosa eu acho que inclui essa sabedoria do perdão, da cabeça e do coração.
Ap: Depois da morte, vem o que?
Clarisse: Ah, eu acredito piamente que alguma coisa lá em cima há. Não me pergunte o que. Mas que eu acho que nossas almas vão se transformar em uma energia maravilhosa, eu acredito. Piamente. Agora, eu só vou saber daqui a 10 anos. (risos)
Ap: Qual é o outro país do mundo que você viveria se fosse deportada?
Clarisse: Eu ainda não descobri sabe, não consegui. Eu sempre penso nisso. Porque às vezes me dá uma vontade de ir embora daqui. Mas pra onde que eu vou? Eu não sei... nunca consegui descobrir isso. Cada lugar tem seu encanto, etc, mas na terra da gente a própria dor dói menos, como diz o poeta.
Ap: Você consegue guardar um segredo bem cabeludo?
Clarisse: Consigo. Inclusive porque eu esqueço. Então eu sou a melhor pessoa do mundo pra você falar ‘olha, eu vou te falar uma coisa, mas não conta pra ninguém’. Quando você acabou, já não sei mais. Eu sou boa nisso. Eu tenho um respeito muito grande por essa manifestação. Se a pessoa me confiou uma coisa, ela pode confiar com toda certeza. E também essa coisa que eu esqueço. (risos) Você sabe que eu estava falando isso, eu falei olha, eu erro meu nome. Ontem eu estava desesperada procurando o telefone, telefone mesmo, não é celular. Ele estava no meio do roupeiro. No meio das toalhas de banho. Meu filho quase me matou. Eu acho óculos na geladeira, não é força de expressão, acontece mesmo. Aí eu falei assim, eu fui boazinha comigo mesma. Eu terminei ontem um show que estava fazendo, onde eu digo entre outras coisas, 34 poemas. Eu acabei de fazer um tributo ao Vinícius de Moraes, nada, nada eu falo onze poemas. Eu tenho o espetáculo ‘As Nove partes do desejo’ que é um monólogo onde eu falo 1h15min ininterruptamente, são 47 páginas. E graças a Deus, está tudo aqui, na cabeça, muito bem armazenado. Agora, de resto, eu erro meu nome. Se perguntam meu nome, eu paro pra pensar. Porque a minha cabeça, no dia a dia, eu estou tão envolvida, é uma coisa, que o que me interessa é guardar o texto. É estudar, e sabê-lo muito bem. Mas o resto eu já erro tudo. É impressionante.
Ap: Uma velha amizade tem o direito de nos fazer sofrer? Você já sofreu por amigos?
Clarisse: Tem sim. Não sofri. Mas tem direito, porque eu acho que todos nós temos o direito de errar. Errando a gente provavelmente vai fazer alguém sofrer. Somos humanos. Mas nunca sofri. Assim, sofro se tem um amigo que está doente... Aliás, meu pai e minha mãe sempre disseram que a herança que nos deixariam são os amigos. Eu sou apaixonada pelos amigos. Dou um valor a um amigo... Movo montanhas por um amigo. O meu pai, a qualquer lugar do mundo que eu vá, a gente brinca com ele, lembra à história do Miguel, aquela ‘o papa eu não sei quem é, mas quem está do lado é o Miguel’? O meu pai é assim. Se eu falo ‘olha pai, estou indo pra Cochinchina’, ele diz ‘oh minha filha, eu tenho um amigo lá, liga pra ele, ele vai te receber’. E graças a Deus eu estou podendo dizer isso pros meus filhos. Eu tenho amigos aonde eu vou, eu deixo amigos e faço por conquistá-los. É muito bonito. É uma coisa... O Dostoievski também tem uma frase que ele diz ‘nem é o amor que é importante, mas a gentileza’ e eu acho que a amizade vem junto com isso.
Ap: Você declarou aqui que adora poesias, e textos... Você poderia recitar declamar uma poesia, um trechinho, alguma coisa que você goste?
Clarisse: Assim é horrível não é... (risos) Mas tem uma da Hilda Hilst que ela diz:
Morte minha irmã, Que se faça mais tarde a tua visita. Agora nunca. Porque o amor de Antonio, o vermelho da vida, pela primeira vez se anuncia fecundo. Diante da luz do sol o meu rosto noturno de poeta te suplica. Que te demores muito contemplando o mundo, que te detenhas ali, entre a roseira e o junco, ou talvez, para o teu conforto, assim, te estendas à sombra das paineiras, sonolenta. Morte contempla. Esquece quem por amor em tantos versos já te fez rainha. Esquece o poeta. Porque o amor de Antonio, o vermelho da vida, pela primeira vez secreto se avizinha.
É lindo não é? Na verdade, deixa eu explicar. O texto original da Hilda não é Antonio o nome. Claro que eu não vou lembrar agora. É que esse espetáculo que eu faço chamado ‘Antonio’, eu falo dos Antonios da minha vida. Eu troquei o nome por Antonio. Eu acho lindo! Ela é linda, eu adoro aquela mulher.
Ap: Estamos chegando ao final do programa, depois dessa poesia belíssima. Gostaríamos de poder ouvir mais... Temos algumas perguntinhas que encerram o programa. Podemos fazê-las?
Clarisse: Claro.
Ap: Qual foi o assunto que nós não abordamos aqui, que você gostaria de falar alguma coisa?
Clarisse: Mais profundamente de As Nove partes do desejo.
Ap: Diga?
Clarisse: Diga o que é? Essa peça é tão curiosa, no sentido de que ela é quase um documentário. São nove mulheres em cena. Sendo essas nove mulheres, nenhuma é ficção. A Heather as conheceu. É muito comovente interpretar pessoas que estão no mundo ainda. Algumas já se foram. Na própria guerra do Iraque. Eu faço uma camelô, uma beduína, uma médica, uma artista plástica, que infelizmente foi uma das que morreu. Uma criança, uma menina iraquiana; uma mãe, uma mulher americana, faço um personagem chamado Mulaia, que seria a nossa carpideira, aquelas mulheres que emocionam as pessoas com seus textos. E está faltando uma, que é uma intelectual. Então, essas nove mulheres, são de uma profundidade, de um texto de uma qualidade e de um exemplo vivo... Quando eu escolhi esse texto, eu disse que eu tive a oportunidade, a bênção de Deus em minha vida, de poder dentro do meu ofício, mostrar o meu mais veemente repúdio a todo e qualquer tipo de preconceito e guerra. Então, o espetáculo que eu faço o convite a todos vocês, não é uma comédia. Mas por favor, não tenham medo de se comover. Não tenham medo de ouvir um texto brilhante. A interpretação, eu não posso dizer (risos). Meu pai adora! Mas, é mister, é vital que assistam esse espetáculo, que eu tenho certeza... Uma das frases mais simples que eu ouvi, foi ‘o espetáculo mudou a minha vida’. Então, é isso que eu quero dizer pra vocês. As Nove partes do desejo é um espetáculo de uma beleza, de uma poesia, e mostra a força da alma feminina como eu nunca vi em nenhum outro trabalho.
Ap: Clarisse, quantas vezes você mentiu nesse programa?
Clarisse: Infelizmente nenhuma.
Ap: Infelizmente?
Clarisse: É, porque sei lá. De repente pudesse ficar mais bonitinho. (risos) Podia ter dado uma enfeitadinha...
Ap: E alguma pergunta ofendeu você?
Clarisse: Nenhuma.
Ap: Chegamos ao final do ‘Prazer em conhece-lo de hoje. A nossa proposta foi cumprida. A nossa convidada foi a atriz Clarisse Abujamra. Entre outras coisas, você ficou sabendo nesse programa, que ela não se arrependeu de nenhum voto dado em nenhuma eleição. Ficou sabendo também, que ela tem mil superstições, inclusive não gosta que se assobie no teatro. Ficou sabendo que ela guarda todos os segredos, porque os esquece. Mas ficou sabendo também, que é uma mulher forte. Não se abate na doença. E ela quer viver somente mais dez anos. Mas nós vamos pedir pro papai do céu nesse programa que a conserve conosco só mais cem! (risos) Fizemos com ela um programa de 55 minutos, foram 3300 segundos e cerca de 25 perguntas que ela respondeu como quis. Agora você conhece melhor Clarisse Abujamra, e pode dizer se realmente teve prazer em conhecê-la.
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