segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Clarisse dá uma Entrevista para o 20/20 Brasil

Entrevista realizada em Maio de 2004

Eu uso óculos
Do trono à sarjeta



Coreógrafa, atriz e diretora, Clarisse Abujamra mostra o real significado da palavra versatilidade e conta como os óculos fazem parte não só de sua rotina, mas de sua identidade

Lilian Liang

Versatilidade, teu nome é Clarisse. A bailarina, coreógrafa, atriz e diretora Clarisse Abujamra já deu provas suficientes disso, mas não cansa de se superar. No final de maio Clarisse dará vida a uma domadora de leões, na peça O que Leva Bofetadas, do russo Leonid Andreiev. Uma das duas únicas mulheres num elenco de 20 pessoas, ela se diverte enquanto aprende a arte de domar feras. “Estou saindo da ternura para o chicote”, brinca.
Difícil entender como alguém que enfrenta leões tenha começado a carreira na ponta dos pés, mas Clarisse começou. É o seu lado ternura. Conheceu os encantos das sapatilhas quando tinha apenas 4 anos e nunca mais as abandonou. Dançou seu caminho até Nova York, onde desembarcou aos 18 anos para ingressar na academia de Martha Graham, bailarina que revolucionou o conceito de dança nos EUA. Lá, aperfeiçoou a própria arte e dois anos depois voltou para o Brasil. Era 1968.
Em solo brasileiro, Clarisse começou a trabalhar como bailarina e coreógrafa, aos poucos fazendo incursões no mundo do teatro. Passou a fazer coreografias para peças – ela é uma das precursoras do teatro-dança no país – e quiseram os deuses que seu destino lhe batesse à porta numa madrugada, na pessoa da atriz Maria Della Costa. “Foi como nos contos de fadas”, lembra. “Na véspera da estréia a mocinha que fazia o personagem decidiu abandonar a peça e me chamaram para substituí-la. Não sabia nenhuma fala, mas conhecia toda a coreografia.” Entrou em cena e por dias brigou com a produção do espetáculo, que não encontrava ninguém para colocar em seu lugar. Aos poucos foi ficando e criou gosto pela coisa, cumprindo a “profecia” que seu tio Antônio Abujamra, um dos mais conceituados diretores teatrais brasileiros, fizera anos antes: “Clarissinha, você vai fazer teatro”.
“Clarissinha” foi além. Fez teatro, televisão, cinema, direção, sem nunca abandonar a dança. Seus trabalhos mais importantes incluem a coreografia do premiado musical Godspell, de Altair Lima, e a atuação no filme Anjos do Arrabalde, de Carlos Reichenback. Participou de peças que marcaram época no teatro brasileiro, como Morte Acidental de um Anarquista, de Antônio Abujamra, Agnes de Deus, de Jorge Takla, e Carmen com Filtro, de Gerald Thomas. Em televisão, fez parte do elenco de novelas memoráveis como Os Ossos do Barão, do SBT, Escrava Isaura e Anjo Mau, ambas da Globo.
Mesmo com o currículo de peso, uma de suas frustrações é não ter se dedicado tanto quanto gostaria à interpretação. “Nunca tive um alvo definido, estava sempre no estúdio, coreografando, dando aulas, e ao mesmo tempo tocando a carreira de atriz. Gostaria de ter me dedicado a ela com mais afinco”, lamenta. Exagero? Não no mundo de Clarisse, onde as emoções são incomparavelmente mais intensas que no universo dos mortais. “Sempre fui movida por ansiedades e paixões. Vou do trono mais alto à sarjeta em fração de segundos sem nenhum problema”, confessa. “Essa é a síntese da minha vida.”
É essa intensidade que permite que a atriz se mantenha no topo de uma agenda que inclui ensaios, sessões de RPG, compras na feira – pensar que Clarisse Abujamra também vai à feira! – e viagens com os espetáculos A Maçã de Eva e Antonio – da tão necessária poesia. Clarisse ainda encontra tempo para sonhar com projetos como um livro e a viabilização da peça Chantecler, que traduziu e adaptou.
O equilíbrio vem das delicadezas que a cercam no dia-a-dia. Clarisse alimenta-se de poesia, que se encontra espalhada em livros pelo amplo apartamento no décimo andar de um prédio em Higienópolis, em São Paulo. Lê um poema por dia, com a mesma disciplina com que ora e medita todas as manhãs. E encontra a plenitude capaz de amansar o espírito inquieto em três nomes simples – Dinah, Antônio e Diana, seus filhos. Nomes simples e leves, como se para domar esse leão chamado Clarisse.

20/20 - Você sempre usou óculos?
Clarisse - Uso óculos há 51 anos. Comecei a usá-los aos 5 anos de idade, quando fui diagnosticada com astigmatismo e hipermetropia. O grau foi aumentando e hoje, com 7,5 graus, não enxergo nada com nitidez. Detalhes são impossíveis. Estou tentada a operar, mas morro de medo. Já tentei usar lentes de contato, mas não consegui. Tenho tanto medo que aconteça alguma coisa com a minha visão! Tenho pensado em fazer uma cirurgia, mas outro dia me dei conta de que, se operar, não vou mais ter que usar óculos.

20/20 - Mas não é esse o intuito?
Clarisse - É uma sensação estranha. Depois que fechei meu estúdio, por exemplo, uma das minhas grandes dificuldades era escolher que roupa usar. Como trabalhei com dança minha vida inteira, levantava, colocava a roupa de dança e só tirava à noite para o espetáculo ou para ir para casa. Quando parei de dar aulas, não sabia como me arrumar. Com os óculos, por mais ridículo que pareça, pensei a mesma coisa. Eu tenho um buraco do lado do colchão onde eu guardo os óculos antes de dormir. Quando acordo, a primeira coisa que faço é colocá-los. Já saio da cama com eles. Aí escovo os dentes de óculos e tiro para lavar o rosto. Nunca fico sem eles. Brinco que nunca vi meu rosto sem óculos, a não ser quando faço televisão ou vejo o vídeo de uma peça. Operar mexe com tudo isso.

20/20 - Quantos pares de óculos você tem e o que você procura numa armação?
Clarisse - Hoje eu tenho sete pares de óculos. Sempre procurei as menores armações, porque como meu grau é forte fica aquele fundo de garrafa. O primeiro par grande que usei foi um que ganhei do Miguel Giannini, quando participei de um desfile. Mas os outros são bem pequenos e leves, primeiro para não pesar no rosto e segundo porque eu uso o dia inteiro e às vezes me incomoda. Tirar os óculos é o meu primeiro sintoma de cansaço.

20/20 - Você atua de óculos?
Clarisse - A única vez que subi num palco de óculos foi para um personagem muito engraçado, que era uma vaca de presépio. A Valderez de Barros fazia a dona do presépio e eu fazia a vaca. Pedi para o diretor se podia usar óculos porque num determinado momento do espetáculo o coral cantava e a vaca levantava e todos viam meu rosto.

20/20 - Mas não enxergar não atrapalha no palco?

Clarisse - Nunca ninguém percebeu, mas algumas coisas absurdas já aconteceram. Uma vez eu caí para fora do palco porque não vi um degrauzinho. Outra vez foi uma peça com o Antônio Fagundes, que começava com meu personagem escrevendo num quadro-negro. Eu entrava num blecaute. Uma vez me coloquei mal, a luz acendeu e eu comecei a escrever. Mas porque a parede era preta também, eu escrevia metade no palco, metade na parede. E, enquanto escrevia, pensava “Engraçado, a textura desse quadro está esquisita!”. E era uma peça tensíssima, onde o Fagundes fazia o poder e eu fazia a mulher do povo, uma escrava do poder. Quando ele entrou e me viu escrevendo na parede, caiu na gargalhada.
Mas esses são episódios isolados. Eu sempre estudo o palco com óculos, depois sem óculos, busco referências dentro do que eu enxergo. Há algum tempo eu fiz um musical e não tropecei em nenhum fio durante a temporada. Todos tropeçaram, menos eu, porque eu tenho uma atenção muito grande. Mas confesso que sinto falta de sentir o olho do meu parceiro em determinados espetáculos, quando tem que ser no cara-a-cara.

20/20 - Como foi a transição da dança para o teatro e a TV?
Clarisse - Segundo minha mãe, eu entrei no estúdio com 4 anos e nunca mais saí. Não conheço outro lado da vida. Comecei dançando, depois passei a coreografar e fui parar em teatro. Aos poucos comecei a interpretar. O Abujamra foi um cara que sempre me falou que eu ia ser atriz, mas eu não acreditava. Virei atriz por coincidência. Eu coreografava uma peça, mas na véspera da estréia a mocinha que fazia o personagem brigou com a produção e saiu. Acordei de madrugada com a Maria Della Costa batendo na minha porta, pedindo que eu entrasse em cena no dia seguinte. Entrei porque sabia a coreografia inteira, mas briguei dez dias com a produção porque não encontravam ninguém pra me substituir. Como a linha que divide a coreografia e o teatro é muito tênue, fui ficando e criei gosto pela coisa.

20/20 - Qual sua atividade preferida?
Clarisse - O que vale para mim é interpretar, não importa se é teatro ou cinema. Hoje em dia estou tentando escrever. Quero escrever um livro de cunho pessoal até o final deste ano. Vou dar a cara para bater. Escrevo desde que me conheço por gente. Sempre observei absurdamente, porque a observação é a grande aula do ator. Mas agora, além de observar, tenho vontade de escrever sobre o que observo.

20/20 - Algum arrependimento?
Clarisse - Sempre atirei em muitos alvos. Gostaria de ter investido na minha carreira de atriz com mais afinco, porque eu estava sempre dentro do estúdio, coreografando, dando aula, e ia tocando minha carreira de atriz. Investi com todas as fichas um pouco tarde. Não que eu gostasse mais de dança. Eu tinha a mesma paixão pelas artes, mas sempre fui movida por ansiedades e paixões e não conseguia ficar em uma só. Essa é a síntese da minha vida. O Abu [Abujamra] gostava de brincar dizendo “Ansiedade, teu nome é Clarisse”.

20/20 - Você vê a cultura caminhando no Brasil?

Clarisse - Acho que a gente tem que caminhar. Nada vai acontecer enquanto as pessoas não entenderem que o maior investimento em cultura é a educação, enquanto o jovem não for educado com a tendência para arte. Um dos empecilhos é a “censura econômica”. Antes havia a censura moral, mas hoje a falta de condições econômicas impede que o jovem dê continuidade às coisas que lhe interessam. Mas a educação ainda é a grande chave.

20/20 - O que Clarisse Abujamra quer para o futuro?
Clarisse - Acho que meu primeiro projeto é o projeto de todo ator: encontrar o grande personagem, O personagem. Como diretora, meu plano mais ousado é dirigir um musical chamado Chantecler, que eu traduzi e adaptei e que é a menina dos meus olhos. E como escritora – nossa, não gosto de usar essa palavra! –, como alguém que escreve, quero conseguir terminar meu livro. Esse é o mais íntimo e delicado dos meus sonhos.

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